A primeira vez em q me senti velha foi qdo recebi parabéns pelos meus 19 anos.
Isso passa: o aniversário de 50 comemorei com um festão, junto com uma amiga q nasceu na mesma semana q eu. Fizemos a "festa dos 100 anos", com pista de dança, mto rock, show de mágica e carrinhos de sorvete, pipoca e cachorro-quente espalhados pelo jardim.
Até os 18, cada aniversário traz um brinde. É uma delícia: de repente, apenas por se ter passado mais um ano, a gente pode passar a fazer algo q antes não era permitido. Aos 18, a gente pode assistir a qq filme, além de 'dirigir'. É o máximo virar adulto de repente.
Mas, ao completar 19, pela primeira vez constatamos, com desalento, q gastamos um ano inteirinho e não ganhamos nenhum privilégio em troca. Eu tinha acabado de entrar na faculdade de Física-USP, mas não precisaria ter 19 pra isso..... E já namorava o cara com quem sou casada até hj, mas poderia ter continuado com 18 e ele não iria me achar 'criança'. Nunca mais, nas décadas seguintes, me senti tão velha qto aos 19.
Quem decide o que é certo? Quando todo o mundo comete o mesmo erro, beija o mesmo sapo, ele vira príncipe?
domingo, 19 de abril de 2009
quinta-feira, 26 de março de 2009
Maria Concetta Cavalaglio Mela
Morreu Concetta. Deixo seu nome aqui como os egípcios deixavam os nomes de seus mortos inscritos nas colunas do templo, para que os anjos os encontrassem no dia do juízo final.
Foi uma sogra maravilhosa para minha filha – mesmo depois de terminado o casamento –, uma avó maravilhosa para minhas netas – que passavam os fins-de-semana com ela, a cada 15 dias – e uma co-sogra maravilhosa para mim. Eu poderia dizer que ela era doce, mas ‘doçura’, sem adjetivos, não define Concetta. Vamos falar numa combinação de doçura e timidez, mas sob a timidez firmeza. Uma tímida que não tinha medo de dizer timidamente o que pensava. Timidez, doçura e capacidade de oferecer conforto, carinho, apoio.
Self-effacing. Não encontro expressão em português para dizer isso. Haverá, em italiano? Quero dizer que talvez não a notassem, se entrasse em algum lugar, quietamente, como era seu jeito. Mas para os que a conheciam estava ali. Presente.
Veio da Itália para o Brasil aos 18 anos, de navio, sozinha, para encontrar o namorado que partira dois anos antes, “para fazer a América”. De longe mantinham o namoro: trocavam cartas, fotos, e um dia ele mandou a passagem. Casaram-se e aqui tiveram dois filhos, aqui construíram uma indústria que fabricava desde os parafusos até a espuma dos seus móveis. Sempre com essa capacidade de trabalho que o Brasil teve a sorte de receber dos seus imigrantes.
Quando nasceram as netas, toda a capacidade de amor de Concetta se concentrou nelas e foi correspondida. “Essas meninas são minha vida, Bete”, me dizia, no forte sotaque italiano que nunca perdeu.
Nos encontrávamos pouco. Festas de aniversário, de Páscoa e Natal, enquanto durou o casamento do filho dela com minha filha. Na Maternidade, comemorando o nascimento das crianças. Nos batizados. Depois disso, nas apresentações das meninas na escola, às quais ela sempre comparecia, derretida com as netas. E vez ou outra nas salas de espera de um hospital, quando alguma delas se machucou. Nos falávamos por telefone, para combinar a divisão do tempo das crianças, durante as viagens da mãe. E então nos víamos, nos visitávamos, ao buscar as meninas para a troca de avós. É, nos encontrávamos pouco, mas esse pouco era muito, com forte afinidade, determinada não só pelo amor às crianças. Sei que Concetta teria sido minha amiga mesmo que não fosse a outra avó das minhas netas. Isso se tivéssemos a sorte de nos conhecer, o que seria muito improvável sem o encontro dos nossos filhos.
Toda criança deveria ter avós. Isso deveria estar na Declaração dos Direitos das Crianças. Por ‘avós’ me refiro também aos ‘avôs’, é claro.
Nem todas as crianças têm esse privilégio. As que o têm, quase que inevitavelmente enfrentarão um dia a perda. As perdas. É doloroso. Mas no futuro as lembranças deixam de ser doídas e tornam-se apenas preciosas, cherished. Sei disso pelas lembranças que tenho. Também não sei dizer cherish em português. Os dicionários oferecem traduções, claro, mas são todas apenas aproximadas. Em italiano também não há palavra para isso. Viva a globalização, que nos permite o poliglotismo to speak our minds.
Sim, toda criança deveria ter avós. E, se fosse possível, toda criança deveria ter uma nonna.
Foi uma sogra maravilhosa para minha filha – mesmo depois de terminado o casamento –, uma avó maravilhosa para minhas netas – que passavam os fins-de-semana com ela, a cada 15 dias – e uma co-sogra maravilhosa para mim. Eu poderia dizer que ela era doce, mas ‘doçura’, sem adjetivos, não define Concetta. Vamos falar numa combinação de doçura e timidez, mas sob a timidez firmeza. Uma tímida que não tinha medo de dizer timidamente o que pensava. Timidez, doçura e capacidade de oferecer conforto, carinho, apoio.
Self-effacing. Não encontro expressão em português para dizer isso. Haverá, em italiano? Quero dizer que talvez não a notassem, se entrasse em algum lugar, quietamente, como era seu jeito. Mas para os que a conheciam estava ali. Presente.
Veio da Itália para o Brasil aos 18 anos, de navio, sozinha, para encontrar o namorado que partira dois anos antes, “para fazer a América”. De longe mantinham o namoro: trocavam cartas, fotos, e um dia ele mandou a passagem. Casaram-se e aqui tiveram dois filhos, aqui construíram uma indústria que fabricava desde os parafusos até a espuma dos seus móveis. Sempre com essa capacidade de trabalho que o Brasil teve a sorte de receber dos seus imigrantes.
Quando nasceram as netas, toda a capacidade de amor de Concetta se concentrou nelas e foi correspondida. “Essas meninas são minha vida, Bete”, me dizia, no forte sotaque italiano que nunca perdeu.
Nos encontrávamos pouco. Festas de aniversário, de Páscoa e Natal, enquanto durou o casamento do filho dela com minha filha. Na Maternidade, comemorando o nascimento das crianças. Nos batizados. Depois disso, nas apresentações das meninas na escola, às quais ela sempre comparecia, derretida com as netas. E vez ou outra nas salas de espera de um hospital, quando alguma delas se machucou. Nos falávamos por telefone, para combinar a divisão do tempo das crianças, durante as viagens da mãe. E então nos víamos, nos visitávamos, ao buscar as meninas para a troca de avós. É, nos encontrávamos pouco, mas esse pouco era muito, com forte afinidade, determinada não só pelo amor às crianças. Sei que Concetta teria sido minha amiga mesmo que não fosse a outra avó das minhas netas. Isso se tivéssemos a sorte de nos conhecer, o que seria muito improvável sem o encontro dos nossos filhos.
Toda criança deveria ter avós. Isso deveria estar na Declaração dos Direitos das Crianças. Por ‘avós’ me refiro também aos ‘avôs’, é claro.
Nem todas as crianças têm esse privilégio. As que o têm, quase que inevitavelmente enfrentarão um dia a perda. As perdas. É doloroso. Mas no futuro as lembranças deixam de ser doídas e tornam-se apenas preciosas, cherished. Sei disso pelas lembranças que tenho. Também não sei dizer cherish em português. Os dicionários oferecem traduções, claro, mas são todas apenas aproximadas. Em italiano também não há palavra para isso. Viva a globalização, que nos permite o poliglotismo to speak our minds.
Sim, toda criança deveria ter avós. E, se fosse possível, toda criança deveria ter uma nonna.
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domingo, 8 de março de 2009
“A PESSOA ERRADA”
Não vou falar sobre “amar a pessoa errada”, não. Vou falar em “mexer com a pessoa errada”. No caso, o Diogo Mainardi.
Se bem que – deixa eu fazer um longo parênteses – muito antes de começar a circular pela net esse texto cuja autoria é dada como ‘desconhecida’* e que tem o título de A pessoa errada eu já pensava mais ou menos aquilo, mesmo.
Lembro bem da primeira vez em que a coisa suddenly dawned on me. Foi no aniversário de uma prima. Calhou de eu ficar conversando com a vizinha dela, que me despejou detalhes de sua recente separação. “Vocês eram felizes?” “Muito! Mas não deu certo.” Cometi a asneira de dizer que se o casamento funcionou durante 25 anos, pode-se dizer que deu certo. Pode ter azedado, depois, mas deu certo... por um bom tempo.
O marido a deixara pela melhor amiga dela. “Fingia ser minha amiga, freqüentava a minha casa... nossos filhos brincavam juntos!”, ela se lamentou. Eu disse que a outra provavelmente não fingia, era amiga, sim, decerto,... “Mas teve o azar de se apaixonar pelo seu marido”. Ela me olhou como se eu fosse louca de pedra (pedregulho, talvez): “Amigas não fazem isso!”.
Sei lá. Como se a gente pudesse controlar nossas paixões! Coitada da amiga, coitado do marido, coitada dela... Talvez ela devesse dizer “Maridos não fazem isso!”... Por que amigas deveriam ser mais leais do que maridos?
Ela garantia ter descoberto que se casara com aquela figura famosa, A Pessoa Errada. “Mas, se você pudesse escolher”, perguntei, “o que você desejaria? Se um gênio da lâmpada aparecesse agora, o que você pediria a ele? Um outro homem?” “Que fizesse a minha falsa amiga desaparecer da face da Terra. Eu queria nunca ter conhecido essa pessoa! Que ela nunca tivesse existido!” “E se isso acontecesse... você voltaria com seu marido?” “Claro.” “Ou seja: se ela desaparecesse, você se casaria de novo com A Pessoa Errada...?” O olhar dela me informou que eu tinha feito A Pergunta Errada. Como não tenho Desconfiômetro®, perguntei de novo: “Quer dizer, se ela não existisse... ele deixaria de ser A Pessoa Errada e passaria a ser A Pessoa Certa?”
Silêncio. Como continuo sem Desconfiômetro™, tentei explicar: “Enfim, você não quer outro...! Você queria ele mesmo, mas sem um detalhezinho. Se outro não serve, então A Pessoa Certa é ele. Ele é A Pessoa Certa, mas tem defeitos”. Não dei Ibope. Ela foi procurar um ombro mais confortável que o meu. Estranho, sempre acho que digo coisas tão sensatas a quem precisa de conforto...
Mas do que eu queria falar é outra coisa. O artigo do Diogo Mainardi no número 2102 da Vejona! Hilário. Me deu pena do tal Quatipuru Borges, que mexeu com a Pessoa Errada.
Fiquei tentada, claro, a usar outro nome exótico de cidade, continuando a brincadeira que o Mainardi começou, mas desisti. Eu não faria aquilo com tanta classe. Em vez disso, fui guglear, atividade irresistível. Eis o que diz o site Amazônia de A a Z: “O primeiro nome dado ao Município, Quatipuru, foi devido à abundância de roedores - coatipuru ou acutipuru "sciurus aestucus" - existentes na região.” Roedores, hein?

Depois fui ao Houaiss procurar a etimologia. Vício é vício, tem gente por aí viciada em coisas menos inofensiva que pesquisar. “A. G. Cunha, em DHPT, registra tupi aku'ti 'cutia' + pu'ru; segundo Nascentes, do tupi akutipu'ru 'cutia enfeitada' (de aku'ti 'cutia' + pu'ru 'enfeitada'); segundo Silveira Bueno, o sentido 'cutia enfeitada' se deve ao fato de o esquilo exibir uma bela cauda; cp. agutipuru; cf. quatipuru; f.hist. c1777 acotipurú, 1928 acutipurú, 1949 acutipuru."
Anran. Roedor-de-bela-cauda.
Por Tupã! Alguns papais deveriam pesquisar o significado dos nomes que estão dando aos seus filhinhos!
-----------------------------------------------------------------------------------
* (ponho minhas fichas em Marta Medeiros, como autora de A Pessoa Errada, mas sei lá)
--- Desconfiômetro -- sei não, mas desconfio de q esse equipamento tenha marca registrada... por via das dúvidas, escrevi-o assim!
Se bem que – deixa eu fazer um longo parênteses – muito antes de começar a circular pela net esse texto cuja autoria é dada como ‘desconhecida’* e que tem o título de A pessoa errada eu já pensava mais ou menos aquilo, mesmo.
Lembro bem da primeira vez em que a coisa suddenly dawned on me. Foi no aniversário de uma prima. Calhou de eu ficar conversando com a vizinha dela, que me despejou detalhes de sua recente separação. “Vocês eram felizes?” “Muito! Mas não deu certo.” Cometi a asneira de dizer que se o casamento funcionou durante 25 anos, pode-se dizer que deu certo. Pode ter azedado, depois, mas deu certo... por um bom tempo.
O marido a deixara pela melhor amiga dela. “Fingia ser minha amiga, freqüentava a minha casa... nossos filhos brincavam juntos!”, ela se lamentou. Eu disse que a outra provavelmente não fingia, era amiga, sim, decerto,... “Mas teve o azar de se apaixonar pelo seu marido”. Ela me olhou como se eu fosse louca de pedra (pedregulho, talvez): “Amigas não fazem isso!”.
Sei lá. Como se a gente pudesse controlar nossas paixões! Coitada da amiga, coitado do marido, coitada dela... Talvez ela devesse dizer “Maridos não fazem isso!”... Por que amigas deveriam ser mais leais do que maridos?
Ela garantia ter descoberto que se casara com aquela figura famosa, A Pessoa Errada. “Mas, se você pudesse escolher”, perguntei, “o que você desejaria? Se um gênio da lâmpada aparecesse agora, o que você pediria a ele? Um outro homem?” “Que fizesse a minha falsa amiga desaparecer da face da Terra. Eu queria nunca ter conhecido essa pessoa! Que ela nunca tivesse existido!” “E se isso acontecesse... você voltaria com seu marido?” “Claro.” “Ou seja: se ela desaparecesse, você se casaria de novo com A Pessoa Errada...?” O olhar dela me informou que eu tinha feito A Pergunta Errada. Como não tenho Desconfiômetro®, perguntei de novo: “Quer dizer, se ela não existisse... ele deixaria de ser A Pessoa Errada e passaria a ser A Pessoa Certa?”
Silêncio. Como continuo sem Desconfiômetro™, tentei explicar: “Enfim, você não quer outro...! Você queria ele mesmo, mas sem um detalhezinho. Se outro não serve, então A Pessoa Certa é ele. Ele é A Pessoa Certa, mas tem defeitos”. Não dei Ibope. Ela foi procurar um ombro mais confortável que o meu. Estranho, sempre acho que digo coisas tão sensatas a quem precisa de conforto...
Mas do que eu queria falar é outra coisa. O artigo do Diogo Mainardi no número 2102 da Vejona! Hilário. Me deu pena do tal Quatipuru Borges, que mexeu com a Pessoa Errada.
Fiquei tentada, claro, a usar outro nome exótico de cidade, continuando a brincadeira que o Mainardi começou, mas desisti. Eu não faria aquilo com tanta classe. Em vez disso, fui guglear, atividade irresistível. Eis o que diz o site Amazônia de A a Z: “O primeiro nome dado ao Município, Quatipuru, foi devido à abundância de roedores - coatipuru ou acutipuru "sciurus aestucus" - existentes na região.” Roedores, hein?

Depois fui ao Houaiss procurar a etimologia. Vício é vício, tem gente por aí viciada em coisas menos inofensiva que pesquisar. “A. G. Cunha, em DHPT, registra tupi aku'ti 'cutia' + pu'ru; segundo Nascentes, do tupi akutipu'ru 'cutia enfeitada' (de aku'ti 'cutia' + pu'ru 'enfeitada'); segundo Silveira Bueno, o sentido 'cutia enfeitada' se deve ao fato de o esquilo exibir uma bela cauda; cp. agutipuru; cf. quatipuru; f.hist. c1777 acotipurú, 1928 acutipurú, 1949 acutipuru."
Anran. Roedor-de-bela-cauda.
Por Tupã! Alguns papais deveriam pesquisar o significado dos nomes que estão dando aos seus filhinhos!
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* (ponho minhas fichas em Marta Medeiros, como autora de A Pessoa Errada, mas sei lá)
--- Desconfiômetro -- sei não, mas desconfio de q esse equipamento tenha marca registrada... por via das dúvidas, escrevi-o assim!
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Quatipuru Borges
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Língua uniformizada?
Nunquinha!
hj descobri q os portugueses chamam 'cátion' de "catião". Na Wikipedia, há esta frase primorosa, misturando os dois dialetos da Língua Portuguesa:
"Um dos catiões mais comuns é o cátion sódio."
http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A1tion
Evidentemente, frase escrita a quatro mãos por um ptguês e um brasileiro... Nem 'corrigi', deixei assim. Uma pérola a testemunhar (testemunhando) nossas diferenças.
Gosto de dar umas dedadas na Wikipedia, mas esta vale a pena permanecer como está! Vai ser uma pena se alguém corrigir!
aí vai ser um tal de mudarem pra uma e outra língua, dependendo da nacionalidade do 'colaborador'...!
hj descobri q os portugueses chamam 'cátion' de "catião". Na Wikipedia, há esta frase primorosa, misturando os dois dialetos da Língua Portuguesa:
"Um dos catiões mais comuns é o cátion sódio."
http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A1tion
Evidentemente, frase escrita a quatro mãos por um ptguês e um brasileiro... Nem 'corrigi', deixei assim. Uma pérola a testemunhar (testemunhando) nossas diferenças.
Gosto de dar umas dedadas na Wikipedia, mas esta vale a pena permanecer como está! Vai ser uma pena se alguém corrigir!
aí vai ser um tal de mudarem pra uma e outra língua, dependendo da nacionalidade do 'colaborador'...!
sábado, 7 de junho de 2008
NÓS, OS HUMANOS
Num sábado de maio, ao tirar o carro do estacionamento da padaria, vi entrar um homem numa cadeira de rodas. Bem vestido, apressado, subiu o degrau de entrada sem dificuldade, parecendo saltar com a cadeira, como fazem os skatistas quando levantam do chão seus brinquedos, num movimento que os não-skatistas nem entendem como pode funcionar.
O homem parecia apressado. Não daquela pressa que deixa as pessoas de cara fechada de tensão, mas o tipo de pressa que gera uma rapidez entusiasmada, como alguém que se está divertindo com a vida e tem muita coisa a fazer –. e por isso tem pressa. Alguém que vai à padaria num sábado de manhã para comprar pães quentinhos, com a perspectiva de muitas outras coisas interessantes estendendo-se diante de si para o resto do dia.
Ele não tinha pernas.
Não me refiro a não ter a parte de baixo das pernas, ou a não ter joelhos. Não tinha pernas, ponto. Existia apenas do tronco para cima. Quando cheguei em casa, até comentei isso com a família, impressionada talvez com a expressão de entusiasmo no rosto desse homem e também com a agilidade na condução do veículo.
Por acaso, no dia seguinte, no shopping center, ele estava bem na minha frente, na escada rolante. Não vi como acessou a escada; quando cheguei já estava ali. Uma das mãos, a esquerda, firmava-se no corrimão de borracha, sustentando e equilibrando a cadeira cujas rodas não cabiam inteiras num degrau. A outra mão segurava a de uma menininha de uns oito ou nove anos, bonitinha, de cabelos escuros, lisos e compridos que subia de mãos dadas com ele, com a mesma naturalidade de qualquer outra menina que segura a mão do pai, num passeio. Conversavam, animados, sobre o presente que iriam comprar para o dia das mães. Ah, sim: era o dia das mães. Segundo domingo de maio.
Ela não parecia encontrar nada de estranho em estar ali com ele. E é claro que não estranhava – ninguém no mundo é menos estranho para a gente do que nossos pais. E ele não estava se apoiando na menina: dava a mão a ela como qualquer pai dá a mão à filha, com carinho e companheirismo. Vi a aliança no dedo anular, na mão que segurava o corrimão. Um homem casado. Um pai de família, com uma esposa e uma filha.
Não pareciam diferentes de nenhum par de pai e filha que, naquele shopping (como dizem os brasileiros), naquele dia, faziam compras juntos. Mas atraíam a atenção de todos, é claro.
Devem estar tão acostumados a atrair olhares que nem registram o espanto dos outros – assim como celebridades acostumadas a ser reconhecidas por onde passam.
Ontem vi esse homem de novo, no caixa eletrônico do supermercado. Havia umas três pessoas na minha frente, na fila. Era ele quem usava a máquina, naquele momento. Erguendo-se na cadeira tanto quanto possível, para ver melhor a tela, parecia estar encontrando algum problema em realizar alguma operação bancária; acho que tentava pagar uma fatura – e vocês sabem: digitar aquelas duas dúzias de números é uma das tarefas mais exasperantes que a civilização exige dos humanos. Os mais acomodados – estou entre esses – nunca fazem isso; encontram alguma outra solução.
Um homem de cabelos brancos ajudava o que estava na cadeira de rodas. Vi quando esse senhor virou as costas para a máquina, para que o outro teclasse a senha com privacidade. Pensei que fosse um desconhecido, alguém que simplesmente estivesse na fila e se tivesse disposto a ajudar. Continuavam, ambos, não conseguindo realizar a operação – qualquer que fosse ela.
Foi aí que aconteceu o que me levou a escrever esta crônica: o homem na cadeira de rodas aproximou os dois braços da cadeira, fechando-a – é uma dessas dobráveis, leves, de lona – e, simultaneamente, não como um acrobata que faz algum movimento impossível, mas num gesto confortável embora rápido (tão rápido que não dava para entender como fez aquilo) subiu neles. Subiu, sim, nos braços da cadeira! Agilmente e com a maior naturalidade encarapitou-se ali para ver de mais perto a tela, aproximar o rosto do monitor.
Por fim conseguiu completar o que quer que estivesse tentando fazer. Com a mesma rapidez de mágico, abriu a cadeira, acomodou-se no assento, perguntou ao outro:
– Vamos?
E saíram conversando, lado a lado, em direção à saída do supermercado. Ah! Então o outro não era apenas alguém que, na fila, se ofereceu para ajudar. Tinham ido juntos ao caixa automático, como quaisquer dois amigos que vão a qualquer lugar fazer qualquer coisa – dessas tarefas corriqueiras na vida dos humanos, mas que surpreendem os outros humanos quando vemos alguém com um aparente impedimento físico realizar sem nenhuma dificuldade – a não ser aquelas pequenas dificuldades que qualquer outra pessoa encontraria.
Saber que existe gente assim é estimulante. Gente capaz de enfrentar, como se nada fossem, contingências que podem parecer desanimadoras. Só o fato de “saber” que essas pessoas existem já provoca entusiamo; mas ver e rever alguém assim deixa um estoque duradouro de admiração pela fibra de que somos feitos, nós, os humanos.
O homem parecia apressado. Não daquela pressa que deixa as pessoas de cara fechada de tensão, mas o tipo de pressa que gera uma rapidez entusiasmada, como alguém que se está divertindo com a vida e tem muita coisa a fazer –. e por isso tem pressa. Alguém que vai à padaria num sábado de manhã para comprar pães quentinhos, com a perspectiva de muitas outras coisas interessantes estendendo-se diante de si para o resto do dia.
Ele não tinha pernas.
Não me refiro a não ter a parte de baixo das pernas, ou a não ter joelhos. Não tinha pernas, ponto. Existia apenas do tronco para cima. Quando cheguei em casa, até comentei isso com a família, impressionada talvez com a expressão de entusiasmo no rosto desse homem e também com a agilidade na condução do veículo.
Por acaso, no dia seguinte, no shopping center, ele estava bem na minha frente, na escada rolante. Não vi como acessou a escada; quando cheguei já estava ali. Uma das mãos, a esquerda, firmava-se no corrimão de borracha, sustentando e equilibrando a cadeira cujas rodas não cabiam inteiras num degrau. A outra mão segurava a de uma menininha de uns oito ou nove anos, bonitinha, de cabelos escuros, lisos e compridos que subia de mãos dadas com ele, com a mesma naturalidade de qualquer outra menina que segura a mão do pai, num passeio. Conversavam, animados, sobre o presente que iriam comprar para o dia das mães. Ah, sim: era o dia das mães. Segundo domingo de maio.
Ela não parecia encontrar nada de estranho em estar ali com ele. E é claro que não estranhava – ninguém no mundo é menos estranho para a gente do que nossos pais. E ele não estava se apoiando na menina: dava a mão a ela como qualquer pai dá a mão à filha, com carinho e companheirismo. Vi a aliança no dedo anular, na mão que segurava o corrimão. Um homem casado. Um pai de família, com uma esposa e uma filha.
Não pareciam diferentes de nenhum par de pai e filha que, naquele shopping (como dizem os brasileiros), naquele dia, faziam compras juntos. Mas atraíam a atenção de todos, é claro.
Devem estar tão acostumados a atrair olhares que nem registram o espanto dos outros – assim como celebridades acostumadas a ser reconhecidas por onde passam.
Ontem vi esse homem de novo, no caixa eletrônico do supermercado. Havia umas três pessoas na minha frente, na fila. Era ele quem usava a máquina, naquele momento. Erguendo-se na cadeira tanto quanto possível, para ver melhor a tela, parecia estar encontrando algum problema em realizar alguma operação bancária; acho que tentava pagar uma fatura – e vocês sabem: digitar aquelas duas dúzias de números é uma das tarefas mais exasperantes que a civilização exige dos humanos. Os mais acomodados – estou entre esses – nunca fazem isso; encontram alguma outra solução.
Um homem de cabelos brancos ajudava o que estava na cadeira de rodas. Vi quando esse senhor virou as costas para a máquina, para que o outro teclasse a senha com privacidade. Pensei que fosse um desconhecido, alguém que simplesmente estivesse na fila e se tivesse disposto a ajudar. Continuavam, ambos, não conseguindo realizar a operação – qualquer que fosse ela.
Foi aí que aconteceu o que me levou a escrever esta crônica: o homem na cadeira de rodas aproximou os dois braços da cadeira, fechando-a – é uma dessas dobráveis, leves, de lona – e, simultaneamente, não como um acrobata que faz algum movimento impossível, mas num gesto confortável embora rápido (tão rápido que não dava para entender como fez aquilo) subiu neles. Subiu, sim, nos braços da cadeira! Agilmente e com a maior naturalidade encarapitou-se ali para ver de mais perto a tela, aproximar o rosto do monitor.
Por fim conseguiu completar o que quer que estivesse tentando fazer. Com a mesma rapidez de mágico, abriu a cadeira, acomodou-se no assento, perguntou ao outro:
– Vamos?
E saíram conversando, lado a lado, em direção à saída do supermercado. Ah! Então o outro não era apenas alguém que, na fila, se ofereceu para ajudar. Tinham ido juntos ao caixa automático, como quaisquer dois amigos que vão a qualquer lugar fazer qualquer coisa – dessas tarefas corriqueiras na vida dos humanos, mas que surpreendem os outros humanos quando vemos alguém com um aparente impedimento físico realizar sem nenhuma dificuldade – a não ser aquelas pequenas dificuldades que qualquer outra pessoa encontraria.
Saber que existe gente assim é estimulante. Gente capaz de enfrentar, como se nada fossem, contingências que podem parecer desanimadoras. Só o fato de “saber” que essas pessoas existem já provoca entusiamo; mas ver e rever alguém assim deixa um estoque duradouro de admiração pela fibra de que somos feitos, nós, os humanos.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Músicos nordestinos
Vi uma reclamação bem humorada no blog Maria Scombona, http://blog.mariascombona.com.br/2008/05/um-livro-de-auto-ajuda-para-musicos-sergipanos/, assinada por Henrique Teles, sobre a dificuldade de fazer sucesso pra quem tá fora do eixo Rio-SP.
Fazer sucesso em escala nacional ou internacional é difícil, mas a verdade é q é MAIS DIFÍCIL pra quem mora no tal do “eixo".
Praticamente todo cantor ou compositor de sucesso no Brasil é do nordeste!!! É quase um pré-requisito -- acho q só o Chico Buarque é do sudeste.
Há os Caetanos, os Gils, os Chicos Césares, os Zecas Baleiro, os Moraes Moreiras, as Elbas Ramalho, as Gals, as Danielas, as Ivetes, as Claudias Leite, todos nordestinos. Não tem músico sulista ou sudestino com essa projeção!!
A explicação pra isso é a seguinte: numa cidade menor, é mais fácil o cara se destacar. Aí ele faz sucesso na sua cidadezinha, depois parte pra capital do estado já com rótulo de sucesso, daí vai pro resto do país já como um sucesso regional.
Enquanto isso, na multidão de SP ou Rio é difícil um principiante se destacar. São mtos os principiantes, é difícil se destacar!
Fazer sucesso em escala nacional ou internacional é difícil, mas a verdade é q é MAIS DIFÍCIL pra quem mora no tal do “eixo".
Praticamente todo cantor ou compositor de sucesso no Brasil é do nordeste!!! É quase um pré-requisito -- acho q só o Chico Buarque é do sudeste.
Há os Caetanos, os Gils, os Chicos Césares, os Zecas Baleiro, os Moraes Moreiras, as Elbas Ramalho, as Gals, as Danielas, as Ivetes, as Claudias Leite, todos nordestinos. Não tem músico sulista ou sudestino com essa projeção!!
A explicação pra isso é a seguinte: numa cidade menor, é mais fácil o cara se destacar. Aí ele faz sucesso na sua cidadezinha, depois parte pra capital do estado já com rótulo de sucesso, daí vai pro resto do país já como um sucesso regional.
Enquanto isso, na multidão de SP ou Rio é difícil um principiante se destacar. São mtos os principiantes, é difícil se destacar!
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segunda-feira, 5 de maio de 2008
Laurinha em Campos
www.youtube.com/v/Ig_yHjWOPD8
A vista para o lado norte da nossa Hastings On The Hill, ainda antes de comprarmos a casa. Laurinha passa, linda.
A vista para o lado norte da nossa Hastings On The Hill, ainda antes de comprarmos a casa. Laurinha passa, linda.
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