Entrevista de Izacyl Guimarães Ferreira com Betty Vidigal, Erorci Santana e Ieda Estergilda de Abreu
1. Quando, em que idade, começou a escrever versos?
Erorci Santana - Comecei tarde, aos 18 anos. Lembra-me ter entrado numa fossa terrível por ter levado um fora de uma garota frívola, levada ao Olimpo do meu amor adolescente. Arrasado, rabisquei os primeiros versos de um poeminha romântico, não sei se para gozar melhor aquela dorzinha funda ou aplacar a turbulência afetiva. O pior é que até hoje não esqueci aquele monstro de graça e crueldade feminina. Tomara que os seios dela, flácidos e insensíveis, estejam imersos num prato de sopa na solidão desta noite fria.
Ieda Abreu - Mais ou menos aos 15, 16 anos, mas antes de escrever, lia, copiava poemas, poesias que me agradavam – também pensamentos, reflexões - em cadernos e diários. Hoje bem menos mas não abandonei de todo o hábito.
Betty Vidigal – Comecei a fazer versos antes de aprender a escrever. Eu nem saberia, talvez, que eram poemas, se meu pai não se tivesse encantado com aquelas frases rimadas e ritmadas, que não tinham nenhum significado objetivo. Foi ele quem me disse que aquilo era poesia. Então eu acordava no meio da noite (até hoje é assim que meus versos se formam: quando estou dormindo) e chamava: “Pai, fiz um verso!”. Ele vinha ao meu quarto, sentava na beira da cama, ouvia, dizia: “Que beleza.”. E escrevia para mim. Isso até os seis anos, quando comecei a escrever eu mesma. Li cedo, mas só aprendi a escrever aos seis.
2. São muitos os conceitos sobre o que seja poesia. Qual o seu, se próprio, ou de quem se o faz seu?
Erorci Santana - Muitos conceitos foram inscritos nas páginas da história da literatura, alguns bastante sagazes mas frios, acadêmicos, buscando a verdade científica nessa matéria cambiante e movediça; outros francamente tolos e, ainda outros, tristemente redutores ou abertamente idiossincráticos. O conceito mais acertado parece ser aquele do Mestre Massaud Moisés, que afirma ser a literatura uma forma ou tipo de conhecimento, assim como as demais artes, as religiões, as ciências e as filosofias. Quanto à poesia, eu somo com aqueles que a vêem como arquitetura verbal capaz de instaurar a magia, o enlevo, o encantamento. Uma máquina assim como nós, humanos, feita para comover.
Ieda Abreu - Acho que nunca quis definir poesia, não senti necessidade, até fujo das definições. Mas vou localizar quem disse que no reino da palavra, a poesia “é a forma de expressão mais sofisticada”.
Betty Vidigal – Separemos poesia de poema. A poesia pode estar num copo d’água em que um redemoinho de açúcar gira até desaparecer entre as moléculas de H2O. Pode estar no jeito com que uma pessoa vê um acontecimento e não estar no olhar de outra pessoa para o mesmo evento.
Um poema é outra coisa. Nem todo poema é Poesia – alguns são apenas versos.
Para que um poema seja poesia é preciso que diga algo que nunca foi dito ou que diga aquilo que todos sabem, mas de forma originalíssima. E que haja um estranhamento nos significados, instilado com tanta naturalidade que nem se percebe quão estranho é.
A forma é mais importante que o significado. E, dos muitos aspectos da forma, fundamental é o ritmo. Sem ritmo não há poema. O texto pode ser lindíssimo, pode dizer coisas “poéticas”, mas, se não tiver ritmo, é prosa. Mesmo que esteja dividido em muitas linhas.
Depois, o som das palavras. Rimas toantes ou consoantes, internas e externas, aliterações, repetições, ecos, sons graves ou agudos, abertos ou fechados. Que as rimas não sejam óbvias. E que as frases que não sejam retorcidas para forçar os versos a terminar com palavras que rimem.
Por fim a métrica, dispensável, mas que, se houver, torna tudo tão mais interessante.
3. Bandeira disse que o primeiro verso é com Deus, e o resto com ele. Rilke, que a inspiração é só o começo de um longo trabalho. Com você, qual o processo da escrita? Uma idéia, um ritmo, um sopro, o quê?
Erorci Santana - O diagnóstico já veio com a pergunta. Já fui intimista e sublimei demais. Com o tempo, fui abandonando essa imatura inclinação e meus poemas começaram a nascer de visões do irrisório. Daí eu gostar tanto de Manoel de Barros e, mais recentemente, do poeta Donizete Galvão, meu amigo. Ambos têm esse gosto pelo ínfimo detalhe. Acho que os poetas são muito melhores quando descem dos excelsos páramos e amiúdam o olho para o microcosmo, os amores acanhados, os aviltamentos biológicos e minerais, a degradação da alma, os transes individuais, sem perder o vetor filosófico. Outro dia eu vi uma fotografia que servia de prova nos autos de um processo, tirada do telhado quebrado de um edifício, com infiltrações de água, rabiolas de pipas enroscadas na antena de TV e um pombo morto, naquela esplêndida ruína que só exibem os pombos envenenados e os cachorros atropelados, seres vadios agregados à comunidade humana mas sem dono ou adoção. A cena me inspirou e estou escrevendo mais um poema sobre o tema do curso das vidas no subúrbio dessa grande cidade.
Ieda Abreu – Concordo com Rilke, acrescentando, por experiência própria, que a inspiração acompanha o trabalho do poeta também no meio e no fim. Meu ponto de partida e de chegada é o vazio.
Betty Vidigal – Em geral acordo no meio da noite com um poema pronto. Acordo, escrevo e nunca mais esqueço. Se não escrever, se o sono me enganar, me convencer de que no dia seguinte vou me lembrar, perco o poema.
A parte de mim que escreve versos não sou eu, é como se fosse outra pessoa (eu a chamo de Virginia). Às vezes o poema brota quando estou assistindo a um filme, ou dirigindo por uma estrada reta e longa; essas situações em que a gente se desliga de si. O que “ela” escreve não é o que sinto ou penso. Não sei de onde vem.
No período pré-islâmico, os árabes acreditavam que poetas eram assombrados por um espírito, um gênio (jinniy) que neles habitava e lhes ditava versos. Tranqüiliza, saber que desde sempre foi assim.
Recentemente, um aluno, numa oficina literária, me mostrou que “Virgínia” contém o som “jinniy”. Espantoso, porque chamei assim “aquela que escreve versos” muito antes de ouvir falar em poesia pré-islâmica!
4. Já não há “gerações”, “escolas”, sequer “tendências”. Como você se situa nessa liberdade geral?
Erorci Santana - Mas eu nunca acreditei em gerações, escolas ou tendências. Acredito no espírito da época. Esse espírito é que nos rege; vibramos com ele na medida de nosso talento. Eu me sinto à vontade para criar quando a poesia quiser, com as janelas da alma escancaradas para a entrada desse sopro que faz a essência do poeta.
Ieda Abreu - Independente de escolas, gerações e tendências, mas respeitando influências, mestres, me situo no tempo presente, sempre.
Betty Vidigal - Poemas são sempre individuais. Mesmo os poetas da mesma 'geração' ou 'escola' são diferentes uns dos outros. Podem ser ligados por laços de amizade, por afinidades estéticas, ou foram reunidos, depois de mortos, por quem os estudou. Não existe poesia coletiva, não é atividade de equipe.
5. Vê utilidade na poesia ou se trata de um ato gratuito? Holderlin disse que é a mais inocente das atividades. Também a mais perigosa. Comente.
Erorci Santana - Rejeito a idéia da poesia como inutensílio. Mesmo porque um poeta epidérmico e visceral como Rilke, sem a poesia, não se sustentaria um minuto em pé. A poesia é o andaime dos seres líricos. É matéria viva e, como tal, integra a cadeia alimentar dos espíritos refinados. Como, então, pode ser inútil ou gratuita?
A afirmação de Holderlin, fundada no paradoxo, é improdutiva e não leva a lugar algum. De qualquer modo, não sei como ver inocência no gesto da poesia. Não há inocência nem no bruxo nem em seu caldeirão. Que é uma atividade de alto risco eu não tenho dúvida. A poesia sonda territórios desconhecidos, em muitos casos tira véus com mais eficácia do que a ciência, antecipa o futuro. Comecei a ter essa percepção do caráter vaticinador da poesia no momento em que algumas coisas que escrevi aconteceram, como um milagre. Felizmente a poesia nunca se desaparta do assombroso, do maravilhoso. Poesia, como o nascimento da vida, consegue ser, a um só tempo, epifânica e dolorosa.
Ieda Abreu – Poesia não combina com utilidade. Nada é gratuito. Quanto a ser inocente e perigosa, é a visão de Holderlin.
Betty Vidigal – Não é útil. Não serve pra nada. É só incontrolável. Ninguém faz poesia porque quer. Para um poeta, é tão inevitável quanto respirar. Para os outros, não sei.
Quem decide o que é certo? Quando todo o mundo comete o mesmo erro, beija o mesmo sapo, ele vira príncipe?
sábado, 10 de abril de 2010
Erro nas instruções do Blogger...
Uma das páginas acessadas, ao se criar aqui um novo blog, diz: "Páginas a serem exibidas".
Este é um dos erros mais comuns, hoje. A maior parte das pessoas acredita sinceramente que o infinitivo deve ser sempre flexionado. Não: não deve.
Depois da preposição "a", NUNCA!
O correto, portanto, é "Páginas a ser exibidas".
Este é um dos erros mais comuns, hoje. A maior parte das pessoas acredita sinceramente que o infinitivo deve ser sempre flexionado. Não: não deve.
Depois da preposição "a", NUNCA!
O correto, portanto, é "Páginas a ser exibidas".
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
"Cabeça quente", "esfriar a cabeça;";;;
Mais uma vez, constatei como é sábia a... ora, a sabedoria! Me refiro à popular.
A gente ouve dizerem q "o cara tá com a cabeça quente", ou q alguém precisa "esfriar a cabeça", e nem pensamos em entender isso no sentido literal. Mas devíamos.
Outem, eu estava lembrando de coisas q não gosto de lembrar. De repente, percebi q estava sentindo calor.
Liguei o ventiladorzinho q comprei na Itália, numa loja de objetos de bom design. São mais curiosidades, o q eles têm lá, do q peças assinadas. O ventilador é uma gracinha, uma miniatura daqueles altos, magrelos. Não é um desses gordinhos q, uns anos atrás, se viam por aí, em geral em tons bem brega de rosa e azul.
Este é branco, de plástico de alta densidade, com uns 20 cm de altura. Made in China, claro. Liga-se ao PC por uma entrada USB. 5 Volts. E venta q é uma beleza... É só apertar um botãozinho azul, no meio do pedestal. Eu aponto direto para o rosto, gosto de ficar com a cara gelada.
Saby, q estava comigo no momento da compra, achou um absurdo: "Vc vai pagar 20 euros por isso?!" Vou, ué... Um euro por cm...!"
:o)
E foi assim: qdo as memórias ruins estavam rodando de mãos dadas em torno da minha testa, como uma sarabanda de bruxas ou de insetos, liguei o ventiladorzinho e imediatamente elas foram subtituídas por lembranças gostosas. Vi, na prática, uma demonstração dos efeitos de 'cabeça quente' e de 'esfriar a cabeça'. Valeu!
A foto é do próprio ventiladorzinho... Boa compra, essa!

A gente ouve dizerem q "o cara tá com a cabeça quente", ou q alguém precisa "esfriar a cabeça", e nem pensamos em entender isso no sentido literal. Mas devíamos.
Outem, eu estava lembrando de coisas q não gosto de lembrar. De repente, percebi q estava sentindo calor.
Liguei o ventiladorzinho q comprei na Itália, numa loja de objetos de bom design. São mais curiosidades, o q eles têm lá, do q peças assinadas. O ventilador é uma gracinha, uma miniatura daqueles altos, magrelos. Não é um desses gordinhos q, uns anos atrás, se viam por aí, em geral em tons bem brega de rosa e azul.
Este é branco, de plástico de alta densidade, com uns 20 cm de altura. Made in China, claro. Liga-se ao PC por uma entrada USB. 5 Volts. E venta q é uma beleza... É só apertar um botãozinho azul, no meio do pedestal. Eu aponto direto para o rosto, gosto de ficar com a cara gelada.
Saby, q estava comigo no momento da compra, achou um absurdo: "Vc vai pagar 20 euros por isso?!" Vou, ué... Um euro por cm...!"
:o)
E foi assim: qdo as memórias ruins estavam rodando de mãos dadas em torno da minha testa, como uma sarabanda de bruxas ou de insetos, liguei o ventiladorzinho e imediatamente elas foram subtituídas por lembranças gostosas. Vi, na prática, uma demonstração dos efeitos de 'cabeça quente' e de 'esfriar a cabeça'. Valeu!
A foto é do próprio ventiladorzinho... Boa compra, essa!

Marcadores:
cabeça quente,
esfriar a cabeça,
ventilador para micro
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
"Física Quântica"
A primeira vez q vi alguém completamente avesso a qq espécie de pensamento ligado às Ciências Exatas dizer q estava fazendo um curso de "Física Quântica", fiquei intrigada.
-- Física Quântica?!
-- Pois é --, respondeu a estudante, com um sorriso modesto q tanto poderia significar "não estou entendendo lhufas dessas aulas" como "sou um gênio, mas não demonstro...".
-- Mas qto tempo dura esse curso?
-- Quatro meses, duas vezes por semana!
Hm.... profundo, hein? Oito aulas por mês... 24 aulas ao todo....
-- E como vc tá se virando com a matemática?
-- Não tem matemática!
Ah, bom.. então está explicado. Inda tive a ingenuidade de imaginar q se tratasse de um vôo de pássaro sobre esse aspecto da Física. Algo como uma exposição básica dos fundamentos teóricos, sem aprofundar-se em nenhuma teoria.
Mas não!
Era algo infinitamente mais prosaico...
Pois imaginem q há quem sustente q a Física Quântica comprova todo tipo de balela 'espiritualista'. Claro, tinha q ser isso... como não 10confiei???
-- Física Quântica?!
-- Pois é --, respondeu a estudante, com um sorriso modesto q tanto poderia significar "não estou entendendo lhufas dessas aulas" como "sou um gênio, mas não demonstro...".
-- Mas qto tempo dura esse curso?
-- Quatro meses, duas vezes por semana!
Hm.... profundo, hein? Oito aulas por mês... 24 aulas ao todo....
-- E como vc tá se virando com a matemática?
-- Não tem matemática!
Ah, bom.. então está explicado. Inda tive a ingenuidade de imaginar q se tratasse de um vôo de pássaro sobre esse aspecto da Física. Algo como uma exposição básica dos fundamentos teóricos, sem aprofundar-se em nenhuma teoria.
Mas não!
Era algo infinitamente mais prosaico...
Pois imaginem q há quem sustente q a Física Quântica comprova todo tipo de balela 'espiritualista'. Claro, tinha q ser isso... como não 10confiei???
Marcadores:
curso de Física Quantica,
espiritualismo,
Física Quântica
domingo, 4 de outubro de 2009
Harold Bloom fala de Fernando Pessoa


Encontrei na Wikipedia a seguinte frase: "No livro The Western Canon, o crítico literário estadunidense Harold Bloom considerou-o o mais representativo poeta do século XX, ao lado do chileno Pablo Neruda."
Não acreditei. Não pode ser verdade. Um crítico literário português ou brasileiro poderia dizer isso. Não Harold Bloom! Nenhum crítico americano diria q um escritor q escreve em Português ou Espanhol foi "o mais" qq coisa de algum século! Assim como nenhum francês diria isso de alguém q não escreve em Francês... Para cada um deles, "o maior poeta do mundo" é sempre alguém q escreveu em sua língua.
Naturalmente, fui investigar.
Encontrei uma entrevista à revista Época. Lá estão, entre mtas outras, a seguinte pergunta e a seguinte resposta:
ÉPOCA – O senhor cita Fernando Pessoa entre os grandes escritores no Cânone Ocidental. Agora inclui Machado de Assis. Por que ele é gênio?
Bloom – Leio em português com certa fluência. Gosto muito de José Saramago, somos bons amigos, embora eu não concorde com a posição dele em relação à guerra contra o terrorismo. Ele é comunista, respeito as idéias dele, mas não concordo. É um bom escritor. Em poesia, a língua portuguesa legou Camões e Fernando Pessoa. Na ficção, adoro Eça de Queirós e Machado de Assis. Considero Machado o maior gênio da literatura brasileira do século XIX. Ele reúne os pré-requisitos da genialidade: exuberância, concisão e uma visão irônica ímpar do mundo. Procuro um grande poeta brasileiro vivo. Ainda não o encontrei. Conheço Carlos Drummond de Andrade e ouvi falar de Guimarães Rosa, que adoraria ler. Não sei se terei tempo.
(Perceba-se q ele não mostra, nessa entrevista, tanto entusiasmo pelo 'nosso' Pessoa como assevera a Wikipedia!)
Vejamos então o q foi q ele de fato escreveu, em The Western Canon, na pg. 451 do livro, edição de 1995. O capítulo se chama: "Borges, Neruda e Pessoa: o Whitman Hispano-Português". Em resumo: nosso Pessoa não passaria de uma versão portuguesa de Walt Whitman, na visão do crítico estadunidense...
"As a foil to the latin American poets I offer the amazing Portuguese poet, Fernando Pessoa (1888-1935), who as a fantastic invention surpasses any invention by Borges.
Pessoa, born in Lisbon and descended on the paternal side from Jewish conversos, was educated in South Africa and, like Borges, grew up bilingual.
Indeed, until he was twenty-one, he wrote poetry only in English. In poetic eminence Pessoa matches Hart Crane, whom he precisely resembles, particularly in Mensagem ("message" or "summons"), a poetic sequence on Portuguese history that is akin to Crane's Bridge. But powerful as many of Pessoa's lyrics are, they are only one part of his work; he also invented a series of alternative poets - Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis among them - and proceeded to write entire volumes of poems for them, or rather as them. Two of them - Caeiro and Campos - are great poets, wholly different from each other and from Pessoa, not to mentin Reis, who is an interesting minor poet.
Pessoa was neither mad nor a mere ironist; he is a Whitman reborn, but a Whitman who gives separate names to "my self", "the real me" or "me myself", and "my soul", and writes wonderful books of poems for all three of them as well as a separate book under the name of Walt Whitman. The parallels are close enough not to be coincidences, particularly since the invention of the "heteronyms" (Pessoa's term) followed an immersion in Leaves of Grass. Walt Whitman, one of the roughs, an American, the "myself" of Song of Myself, becomes Álvaro de Campos, a Portuguese Jewish ship's engineer. The "real me" or "me myself" becomes the "keeper of the sheep", the pastoral Alberto Caeiro, while the Whitmanian soul transmutes into Ricardo Reis, an Epicurean materialist who writes Horatian odes.
Pessoa provided all three poets with biographies and physiognomies and allowed them to become independent in regard to him, so much so that he joined Campos and Reis in proclaiming Caeiro as his "master" or poetic precursor. Pessoa, Campos and Reis were all influenced by Caeiro, not by Whitman, and Caeiro was influenced by no one, being a "pure" or natural poet with almost no education who died at the High Romantic age of twenty-six. Octavio Paz, one of Pessoa's champion's, summoned up this fourfold poet with a fine economy: "Caeiro is the sun in whose orbit Reis, Campos and Pessoa himself rotate. In each are particles of negation or unreality. Reis believes in form, Campos in sensation, Pessoa in symbols. Caeiro doesn't believe in anything. He exists."
The Portuguese scholar Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, who has emerged as Pessoa's canonical critic, interprets the heteronyms as his "reading, half in complicity, half in disgust with Whitman, not only of Whitman's poetry, but also of Whitman's sexuality and politics." Pessoa's barely repressed homoeroticism emerges in Campos' furious masochism, which is hardly Whitmanian; and the democratic ideology of Leaves of Grass was unacceptable to a Portuguese visionary monarchist.
Although Ramalho de Sousa Santos attempts to evade Pessoa's anguish of contamination in regard to Whitman, influence anxieties are not easily mocked. Like D. H. Lawrence in Studies in Classic American Literature, Pessoa-Campos manifests an enormous ambivalence towards Whtiman's ambitious embraces of the cosmos and everyone in it; and yet Pessoa seems to know, far better than his idealizing critics, how impossible is to sever his poetic selves from Whitman's, despite the marvelous fiction of the heteronyms. Even Ramalho de Sousa Santos, after attempting a Feminist evasion of the burdens of influence, brilliantly returns to the harsh realities of temporal filiation, of the poetic family romance:
From the implicit dialogue in Whitman between me and the Me Myself, Pessoa carved two explicit distinct images of voice. Whitman, earlier, by the virtue of a connective, organic consciusness, was able to weave these two voices together into one dynamic whole."
O q Bloom diz aí é bem diferente do q nosso ufanismo gostaria de ler. Ele elogia Pessoa, mas diz q nosso Fernando escreveu sob forte influência de Walt Whitman (discordo, tá?).
Em nenhum momento Bloom diz q Pessoa foi o "mais representativo poeta do século XX", como afirmava* a Wikipedia.... E tb não diz isso de Lorca nem de Neruda, como afirmam vários sites portugueses.
* afirmava: Não afirma mais, pq corrigi a info. E se alguém discordar da correção, ponhamos isso em discussão lá mesmo. Felizmente a Wikipedia permite discussão, assim como permite alteração dos verbetes.
Estou com preguiça de traduzir, então pego uma tradução q encontrei pronta:
"Como contraste aos poetas latino-americanos, apresento o espantoso poeta português, Fernando Pessoa (1888-1935), que, enquanto invenção fantástica, ultrapassa qualquer criação de Borges. [...] Pessoa não era louco nem um mero ironista; é Whitman renascido, mas um Whitman que dá nomes separados a "o meu Eu", o "Eu verdadeiro" ou "Eu, eu mesmo", e "a minha alma", e escreve maravilhosos livros de poemas para os três, assim como um volume à parte com o nome de Walt Whitman. Os paralelos estão demasiados próximos para serem coincidências, em particular porque a invenção dos "heterónimos" (um termo de Pessoa) se seguiu a uma imersão em Folhas de Erva."
(De O Cânone Ocidental, Harold Bloom - Círculo de Leitores, Lisboa, 1997)
Marcadores:
Fernando Pessoa,
Harold Bloom,
poetas latino-americanos,
The Western Canon,
Wikipedia
terça-feira, 9 de junho de 2009
PASSEIO À BEIRA-MAR
O japonês, cercado por três garotas, disse:
– O problema com as mulheres...
Fez uma pausa de efeito – ou talvez fosse uma hesitação legítima, talvez estivesse organizando os pensamentos.
Eu, que vinha pela areia em passos lentos, aproveitando a visão das ondas, comecei a andar ainda mais devagar. Queria ouvir qual é, afinal, o nosso problema.
Um parênteses: por que chamamos 'japonês' a alguém que deve ser brasileiro há quatro ou cinco gerações? Ninguém diz 'o nigeriano', 'o francês', quando fala dos filhos desses brancos ou negros... muito menos dos bisnetos!
As três meninas também aguardavam o final da sentença. Uma delas tinha olhos puxados e longos cabelos lisos e negros. As outras duas, muito bronzeadas, de olhos claros, talvez tenham tido algum dia cabelos escuros. Agora eram cor-de-mel, com mechas loiras, aquilo a que chamam ‘luzes’.
– O problema é que as mulheres deveriam acreditar mais no que os homens dizem –, declarou o rapaz.
Eu, quase saindo do raio de alcance das vozes, gritei-lhes:
– E vice-versa!
As meninas semi-loiras gargalharam, a de traços orientais jogou de longe um “muito obrigada!” risonho. O rapaz concedeu:
– Concordo.
Será mesmo? Nosso único problema é que um lado da humanidade não escuta o outro? Continuei passando, uma ouvinte que enterra os pés na areia, aproveitando cada passo com os olhos no mar. Mas é impossível não ouvir os sons que o vento traz.
Um pouco adiante de mim, três rapazes caminhavam lado a lado, implicando uns com os outros num tom entre bem-humorado e agressivo. O magro dizia que os dois amigos precisavam emagrecer. O quase gordo e o muito gordo ridicularizavam os braços do magro. E ele, com um tapa na pança do mais barrigudo:
– Claro, você é super-másculo, né?
E murmurou consigo mesmo:
– Cara horrível, meu...!
Enquanto os ultrapassava, interferi:
– Masculinidade e beleza não são necessariamente interligados.
O gordo:
– Obrigado pela defesa. Se é que foi defesa.
– Claro que foi!
E a intrometida seguiu seu caminho, andando muito devagar, mas mais rápido que os três amigos brigantes.
Fiquei pensando: por que será que quando se diz ‘másculo’ entende-se obrigatoriamente ‘sarado’? Aposto meus feijões mágicos como o nível de testosterona tem pouco a ver com a quantidade de músculos.
Se é questão de gosto, eu, por exemplo, não sou fã do tipo ‘saradinho’. Um homem deve ter cara de sábio, longas mãos sensíveis e hábeis, olhar sonhador. Ombros largos e a força natural de todo macho, não aumentada à custa de halteres, mas mantida com eventuais braçadas na água. E a voz grave de quem sabe coisas que nunca imaginei.
O.k.: isto sou eu. Outras adoram os malhados, suponho. Mas já vi uma menina linda dizer às amigas: “Eu gosto de gordinhos.” E instantaneamente ficou rubra com a confissão, totalmente sem graça enquanto as outras riam e ela cobria os olhos com as mãos.
Hm. São insondáveis os caminhos da atração física.
– O problema com as mulheres...
Fez uma pausa de efeito – ou talvez fosse uma hesitação legítima, talvez estivesse organizando os pensamentos.
Eu, que vinha pela areia em passos lentos, aproveitando a visão das ondas, comecei a andar ainda mais devagar. Queria ouvir qual é, afinal, o nosso problema.
Um parênteses: por que chamamos 'japonês' a alguém que deve ser brasileiro há quatro ou cinco gerações? Ninguém diz 'o nigeriano', 'o francês', quando fala dos filhos desses brancos ou negros... muito menos dos bisnetos!
As três meninas também aguardavam o final da sentença. Uma delas tinha olhos puxados e longos cabelos lisos e negros. As outras duas, muito bronzeadas, de olhos claros, talvez tenham tido algum dia cabelos escuros. Agora eram cor-de-mel, com mechas loiras, aquilo a que chamam ‘luzes’.
– O problema é que as mulheres deveriam acreditar mais no que os homens dizem –, declarou o rapaz.
Eu, quase saindo do raio de alcance das vozes, gritei-lhes:
– E vice-versa!
As meninas semi-loiras gargalharam, a de traços orientais jogou de longe um “muito obrigada!” risonho. O rapaz concedeu:
– Concordo.
Será mesmo? Nosso único problema é que um lado da humanidade não escuta o outro? Continuei passando, uma ouvinte que enterra os pés na areia, aproveitando cada passo com os olhos no mar. Mas é impossível não ouvir os sons que o vento traz.
Um pouco adiante de mim, três rapazes caminhavam lado a lado, implicando uns com os outros num tom entre bem-humorado e agressivo. O magro dizia que os dois amigos precisavam emagrecer. O quase gordo e o muito gordo ridicularizavam os braços do magro. E ele, com um tapa na pança do mais barrigudo:
– Claro, você é super-másculo, né?
E murmurou consigo mesmo:
– Cara horrível, meu...!
Enquanto os ultrapassava, interferi:
– Masculinidade e beleza não são necessariamente interligados.
O gordo:
– Obrigado pela defesa. Se é que foi defesa.
– Claro que foi!
E a intrometida seguiu seu caminho, andando muito devagar, mas mais rápido que os três amigos brigantes.
Fiquei pensando: por que será que quando se diz ‘másculo’ entende-se obrigatoriamente ‘sarado’? Aposto meus feijões mágicos como o nível de testosterona tem pouco a ver com a quantidade de músculos.
Se é questão de gosto, eu, por exemplo, não sou fã do tipo ‘saradinho’. Um homem deve ter cara de sábio, longas mãos sensíveis e hábeis, olhar sonhador. Ombros largos e a força natural de todo macho, não aumentada à custa de halteres, mas mantida com eventuais braçadas na água. E a voz grave de quem sabe coisas que nunca imaginei.
O.k.: isto sou eu. Outras adoram os malhados, suponho. Mas já vi uma menina linda dizer às amigas: “Eu gosto de gordinhos.” E instantaneamente ficou rubra com a confissão, totalmente sem graça enquanto as outras riam e ela cobria os olhos com as mãos.
Hm. São insondáveis os caminhos da atração física.
Marcadores:
"japonês",
homens x mulheres. guerra dos sexos,
praia
Assinar:
Postagens (Atom)
