Quem decide o que é certo? Quando todo o mundo comete o mesmo erro, beija o mesmo sapo, ele vira príncipe?
terça-feira, 9 de junho de 2009
PASSEIO À BEIRA-MAR
O japonês, cercado por três garotas, disse:
– O problema com as mulheres...
Fez uma pausa de efeito – ou talvez fosse uma hesitação legítima, talvez estivesse organizando os pensamentos.
Eu, que vinha pela areia em passos lentos, aproveitando a visão das ondas, comecei a andar ainda mais devagar. Queria ouvir qual é, afinal, o nosso problema.
Um parênteses: por que chamamos 'japonês' a alguém que deve ser brasileiro há quatro ou cinco gerações? Ninguém diz 'o nigeriano', 'o francês', quando fala dos filhos desses brancos ou negros... muito menos dos bisnetos!
As três meninas também aguardavam o final da sentença. Uma delas tinha olhos puxados e longos cabelos lisos e negros. As outras duas, muito bronzeadas, de olhos claros, talvez tenham tido algum dia cabelos escuros. Agora eram cor-de-mel, com mechas loiras, aquilo a que chamam ‘luzes’.
– O problema é que as mulheres deveriam acreditar mais no que os homens dizem –, declarou o rapaz.
Eu, quase saindo do raio de alcance das vozes, gritei-lhes:
– E vice-versa!
As meninas semi-loiras gargalharam, a de traços orientais jogou de longe um “muito obrigada!” risonho. O rapaz concedeu:
– Concordo.
Será mesmo? Nosso único problema é que um lado da humanidade não escuta o outro? Continuei passando, uma ouvinte que enterra os pés na areia, aproveitando cada passo com os olhos no mar. Mas é impossível não ouvir os sons que o vento traz.
Um pouco adiante de mim, três rapazes caminhavam lado a lado, implicando uns com os outros num tom entre bem-humorado e agressivo. O magro dizia que os dois amigos precisavam emagrecer. O quase gordo e o muito gordo ridicularizavam os braços do magro. E ele, com um tapa na pança do mais barrigudo:
– Claro, você é super-másculo, né?
E murmurou consigo mesmo:
– Cara horrível, meu...!
Enquanto os ultrapassava, interferi:
– Masculinidade e beleza não são necessariamente interligados.
O gordo:
– Obrigado pela defesa. Se é que foi defesa.
– Claro que foi!
E a intrometida seguiu seu caminho, andando muito devagar, mas mais rápido que os três amigos brigantes.
Fiquei pensando: por que será que quando se diz ‘másculo’ entende-se obrigatoriamente ‘sarado’? Aposto meus feijões mágicos como o nível de testosterona tem pouco a ver com a quantidade de músculos.
Se é questão de gosto, eu, por exemplo, não sou fã do tipo ‘saradinho’. Um homem deve ter cara de sábio, longas mãos sensíveis e hábeis, olhar sonhador. Ombros largos e a força natural de todo macho, não aumentada à custa de halteres, mas mantida com eventuais braçadas na água. E a voz grave de quem sabe coisas que nunca imaginei.
O.k.: isto sou eu. Outras adoram os malhados, suponho. Mas já vi uma menina linda dizer às amigas: “Eu gosto de gordinhos.” E instantaneamente ficou rubra com a confissão, totalmente sem graça enquanto as outras riam e ela cobria os olhos com as mãos.
Hm. São insondáveis os caminhos da atração física.
– O problema com as mulheres...
Fez uma pausa de efeito – ou talvez fosse uma hesitação legítima, talvez estivesse organizando os pensamentos.
Eu, que vinha pela areia em passos lentos, aproveitando a visão das ondas, comecei a andar ainda mais devagar. Queria ouvir qual é, afinal, o nosso problema.
Um parênteses: por que chamamos 'japonês' a alguém que deve ser brasileiro há quatro ou cinco gerações? Ninguém diz 'o nigeriano', 'o francês', quando fala dos filhos desses brancos ou negros... muito menos dos bisnetos!
As três meninas também aguardavam o final da sentença. Uma delas tinha olhos puxados e longos cabelos lisos e negros. As outras duas, muito bronzeadas, de olhos claros, talvez tenham tido algum dia cabelos escuros. Agora eram cor-de-mel, com mechas loiras, aquilo a que chamam ‘luzes’.
– O problema é que as mulheres deveriam acreditar mais no que os homens dizem –, declarou o rapaz.
Eu, quase saindo do raio de alcance das vozes, gritei-lhes:
– E vice-versa!
As meninas semi-loiras gargalharam, a de traços orientais jogou de longe um “muito obrigada!” risonho. O rapaz concedeu:
– Concordo.
Será mesmo? Nosso único problema é que um lado da humanidade não escuta o outro? Continuei passando, uma ouvinte que enterra os pés na areia, aproveitando cada passo com os olhos no mar. Mas é impossível não ouvir os sons que o vento traz.
Um pouco adiante de mim, três rapazes caminhavam lado a lado, implicando uns com os outros num tom entre bem-humorado e agressivo. O magro dizia que os dois amigos precisavam emagrecer. O quase gordo e o muito gordo ridicularizavam os braços do magro. E ele, com um tapa na pança do mais barrigudo:
– Claro, você é super-másculo, né?
E murmurou consigo mesmo:
– Cara horrível, meu...!
Enquanto os ultrapassava, interferi:
– Masculinidade e beleza não são necessariamente interligados.
O gordo:
– Obrigado pela defesa. Se é que foi defesa.
– Claro que foi!
E a intrometida seguiu seu caminho, andando muito devagar, mas mais rápido que os três amigos brigantes.
Fiquei pensando: por que será que quando se diz ‘másculo’ entende-se obrigatoriamente ‘sarado’? Aposto meus feijões mágicos como o nível de testosterona tem pouco a ver com a quantidade de músculos.
Se é questão de gosto, eu, por exemplo, não sou fã do tipo ‘saradinho’. Um homem deve ter cara de sábio, longas mãos sensíveis e hábeis, olhar sonhador. Ombros largos e a força natural de todo macho, não aumentada à custa de halteres, mas mantida com eventuais braçadas na água. E a voz grave de quem sabe coisas que nunca imaginei.
O.k.: isto sou eu. Outras adoram os malhados, suponho. Mas já vi uma menina linda dizer às amigas: “Eu gosto de gordinhos.” E instantaneamente ficou rubra com a confissão, totalmente sem graça enquanto as outras riam e ela cobria os olhos com as mãos.
Hm. São insondáveis os caminhos da atração física.
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segunda-feira, 18 de maio de 2009
Atenção! As empadas NÃO são de palmito!
Passei em frente ao Sampa Café e Restaurante, na rua 3 de dezembro, no Centrão de São Paulo. Tinha umas empadinhas bonitas na vitrine. E um cartão ao lado delas, em pé: “Empada de Palmito”.
Êba! Quando passar por aqui, na volta, vou pedir uma, pensei, fazendo planos para o futuro. Fui ao tabelião na XV de Novembro. E, cumprindo o que me prometera, parei na lanchonete ao voltar para o estacionamento. Não dá pra chamar de ‘restaurante’: não tem mesas. Se tem, não vi. Só uma prateleira de uns 20 cm, junto da parede, do lado oposto ao balcão, com banquetas de bar. Ok, por mim! Nada contra aproveitamento do espaço. Primeira dentada na empada: era de frango. Engoli desapontada a primeira mordida. Reclamei:
– Ei, moça! Esta empada é de frango!
– E daí?
– Está escrito lá que é de palmito!
– De palmito acabou.
– Então precisa avisar que é de frango.
– Você não perguntou.
– Não perguntei porque tá escrito “em-pa-da-de-pal-mi-to”. Eu acreditei! Se não tivesse nada escrito, eu perguntava!
Silêncio enquanto a moça limpa a chapa. Insisto:
– Precisa tirar de lá aquela plaquinha.
Ela continua limpando a chapa. Outra atendente vai lá e tira a plaquinha.
Na hora de pagar, digo:
– Desculpe ter pedido a empada errada, viu?
– Tudo bem, responde ela com um sorriso magnânimo.
Êba! Quando passar por aqui, na volta, vou pedir uma, pensei, fazendo planos para o futuro. Fui ao tabelião na XV de Novembro. E, cumprindo o que me prometera, parei na lanchonete ao voltar para o estacionamento. Não dá pra chamar de ‘restaurante’: não tem mesas. Se tem, não vi. Só uma prateleira de uns 20 cm, junto da parede, do lado oposto ao balcão, com banquetas de bar. Ok, por mim! Nada contra aproveitamento do espaço. Primeira dentada na empada: era de frango. Engoli desapontada a primeira mordida. Reclamei:
– Ei, moça! Esta empada é de frango!
– E daí?
– Está escrito lá que é de palmito!
– De palmito acabou.
– Então precisa avisar que é de frango.
– Você não perguntou.
– Não perguntei porque tá escrito “em-pa-da-de-pal-mi-to”. Eu acreditei! Se não tivesse nada escrito, eu perguntava!
Silêncio enquanto a moça limpa a chapa. Insisto:
– Precisa tirar de lá aquela plaquinha.
Ela continua limpando a chapa. Outra atendente vai lá e tira a plaquinha.
Na hora de pagar, digo:
– Desculpe ter pedido a empada errada, viu?
– Tudo bem, responde ela com um sorriso magnânimo.
domingo, 19 de abril de 2009
Ter 19 anos
A primeira vez em q me senti velha foi qdo recebi parabéns pelos meus 19 anos.
Isso passa: o aniversário de 50 comemorei com um festão, junto com uma amiga q nasceu na mesma semana q eu. Fizemos a "festa dos 100 anos", com pista de dança, mto rock, show de mágica e carrinhos de sorvete, pipoca e cachorro-quente espalhados pelo jardim.
Até os 18, cada aniversário traz um brinde. É uma delícia: de repente, apenas por se ter passado mais um ano, a gente pode passar a fazer algo q antes não era permitido. Aos 18, a gente pode assistir a qq filme, além de 'dirigir'. É o máximo virar adulto de repente.
Mas, ao completar 19, pela primeira vez constatamos, com desalento, q gastamos um ano inteirinho e não ganhamos nenhum privilégio em troca. Eu tinha acabado de entrar na faculdade de Física-USP, mas não precisaria ter 19 pra isso..... E já namorava o cara com quem sou casada até hj, mas poderia ter continuado com 18 e ele não iria me achar 'criança'. Nunca mais, nas décadas seguintes, me senti tão velha qto aos 19.
Isso passa: o aniversário de 50 comemorei com um festão, junto com uma amiga q nasceu na mesma semana q eu. Fizemos a "festa dos 100 anos", com pista de dança, mto rock, show de mágica e carrinhos de sorvete, pipoca e cachorro-quente espalhados pelo jardim.
Até os 18, cada aniversário traz um brinde. É uma delícia: de repente, apenas por se ter passado mais um ano, a gente pode passar a fazer algo q antes não era permitido. Aos 18, a gente pode assistir a qq filme, além de 'dirigir'. É o máximo virar adulto de repente.
Mas, ao completar 19, pela primeira vez constatamos, com desalento, q gastamos um ano inteirinho e não ganhamos nenhum privilégio em troca. Eu tinha acabado de entrar na faculdade de Física-USP, mas não precisaria ter 19 pra isso..... E já namorava o cara com quem sou casada até hj, mas poderia ter continuado com 18 e ele não iria me achar 'criança'. Nunca mais, nas décadas seguintes, me senti tão velha qto aos 19.
quinta-feira, 26 de março de 2009
Maria Concetta Cavalaglio Mela
Morreu Concetta. Deixo seu nome aqui como os egípcios deixavam os nomes de seus mortos inscritos nas colunas do templo, para que os anjos os encontrassem no dia do juízo final.
Foi uma sogra maravilhosa para minha filha – mesmo depois de terminado o casamento –, uma avó maravilhosa para minhas netas – que passavam os fins-de-semana com ela, a cada 15 dias – e uma co-sogra maravilhosa para mim. Eu poderia dizer que ela era doce, mas ‘doçura’, sem adjetivos, não define Concetta. Vamos falar numa combinação de doçura e timidez, mas sob a timidez firmeza. Uma tímida que não tinha medo de dizer timidamente o que pensava. Timidez, doçura e capacidade de oferecer conforto, carinho, apoio.
Self-effacing. Não encontro expressão em português para dizer isso. Haverá, em italiano? Quero dizer que talvez não a notassem, se entrasse em algum lugar, quietamente, como era seu jeito. Mas para os que a conheciam estava ali. Presente.
Veio da Itália para o Brasil aos 18 anos, de navio, sozinha, para encontrar o namorado que partira dois anos antes, “para fazer a América”. De longe mantinham o namoro: trocavam cartas, fotos, e um dia ele mandou a passagem. Casaram-se e aqui tiveram dois filhos, aqui construíram uma indústria que fabricava desde os parafusos até a espuma dos seus móveis. Sempre com essa capacidade de trabalho que o Brasil teve a sorte de receber dos seus imigrantes.
Quando nasceram as netas, toda a capacidade de amor de Concetta se concentrou nelas e foi correspondida. “Essas meninas são minha vida, Bete”, me dizia, no forte sotaque italiano que nunca perdeu.
Nos encontrávamos pouco. Festas de aniversário, de Páscoa e Natal, enquanto durou o casamento do filho dela com minha filha. Na Maternidade, comemorando o nascimento das crianças. Nos batizados. Depois disso, nas apresentações das meninas na escola, às quais ela sempre comparecia, derretida com as netas. E vez ou outra nas salas de espera de um hospital, quando alguma delas se machucou. Nos falávamos por telefone, para combinar a divisão do tempo das crianças, durante as viagens da mãe. E então nos víamos, nos visitávamos, ao buscar as meninas para a troca de avós. É, nos encontrávamos pouco, mas esse pouco era muito, com forte afinidade, determinada não só pelo amor às crianças. Sei que Concetta teria sido minha amiga mesmo que não fosse a outra avó das minhas netas. Isso se tivéssemos a sorte de nos conhecer, o que seria muito improvável sem o encontro dos nossos filhos.
Toda criança deveria ter avós. Isso deveria estar na Declaração dos Direitos das Crianças. Por ‘avós’ me refiro também aos ‘avôs’, é claro.
Nem todas as crianças têm esse privilégio. As que o têm, quase que inevitavelmente enfrentarão um dia a perda. As perdas. É doloroso. Mas no futuro as lembranças deixam de ser doídas e tornam-se apenas preciosas, cherished. Sei disso pelas lembranças que tenho. Também não sei dizer cherish em português. Os dicionários oferecem traduções, claro, mas são todas apenas aproximadas. Em italiano também não há palavra para isso. Viva a globalização, que nos permite o poliglotismo to speak our minds.
Sim, toda criança deveria ter avós. E, se fosse possível, toda criança deveria ter uma nonna.
Foi uma sogra maravilhosa para minha filha – mesmo depois de terminado o casamento –, uma avó maravilhosa para minhas netas – que passavam os fins-de-semana com ela, a cada 15 dias – e uma co-sogra maravilhosa para mim. Eu poderia dizer que ela era doce, mas ‘doçura’, sem adjetivos, não define Concetta. Vamos falar numa combinação de doçura e timidez, mas sob a timidez firmeza. Uma tímida que não tinha medo de dizer timidamente o que pensava. Timidez, doçura e capacidade de oferecer conforto, carinho, apoio.
Self-effacing. Não encontro expressão em português para dizer isso. Haverá, em italiano? Quero dizer que talvez não a notassem, se entrasse em algum lugar, quietamente, como era seu jeito. Mas para os que a conheciam estava ali. Presente.
Veio da Itália para o Brasil aos 18 anos, de navio, sozinha, para encontrar o namorado que partira dois anos antes, “para fazer a América”. De longe mantinham o namoro: trocavam cartas, fotos, e um dia ele mandou a passagem. Casaram-se e aqui tiveram dois filhos, aqui construíram uma indústria que fabricava desde os parafusos até a espuma dos seus móveis. Sempre com essa capacidade de trabalho que o Brasil teve a sorte de receber dos seus imigrantes.
Quando nasceram as netas, toda a capacidade de amor de Concetta se concentrou nelas e foi correspondida. “Essas meninas são minha vida, Bete”, me dizia, no forte sotaque italiano que nunca perdeu.
Nos encontrávamos pouco. Festas de aniversário, de Páscoa e Natal, enquanto durou o casamento do filho dela com minha filha. Na Maternidade, comemorando o nascimento das crianças. Nos batizados. Depois disso, nas apresentações das meninas na escola, às quais ela sempre comparecia, derretida com as netas. E vez ou outra nas salas de espera de um hospital, quando alguma delas se machucou. Nos falávamos por telefone, para combinar a divisão do tempo das crianças, durante as viagens da mãe. E então nos víamos, nos visitávamos, ao buscar as meninas para a troca de avós. É, nos encontrávamos pouco, mas esse pouco era muito, com forte afinidade, determinada não só pelo amor às crianças. Sei que Concetta teria sido minha amiga mesmo que não fosse a outra avó das minhas netas. Isso se tivéssemos a sorte de nos conhecer, o que seria muito improvável sem o encontro dos nossos filhos.
Toda criança deveria ter avós. Isso deveria estar na Declaração dos Direitos das Crianças. Por ‘avós’ me refiro também aos ‘avôs’, é claro.
Nem todas as crianças têm esse privilégio. As que o têm, quase que inevitavelmente enfrentarão um dia a perda. As perdas. É doloroso. Mas no futuro as lembranças deixam de ser doídas e tornam-se apenas preciosas, cherished. Sei disso pelas lembranças que tenho. Também não sei dizer cherish em português. Os dicionários oferecem traduções, claro, mas são todas apenas aproximadas. Em italiano também não há palavra para isso. Viva a globalização, que nos permite o poliglotismo to speak our minds.
Sim, toda criança deveria ter avós. E, se fosse possível, toda criança deveria ter uma nonna.
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domingo, 8 de março de 2009
“A PESSOA ERRADA”
Não vou falar sobre “amar a pessoa errada”, não. Vou falar em “mexer com a pessoa errada”. No caso, o Diogo Mainardi.
Se bem que – deixa eu fazer um longo parênteses – muito antes de começar a circular pela net esse texto cuja autoria é dada como ‘desconhecida’* e que tem o título de A pessoa errada eu já pensava mais ou menos aquilo, mesmo.
Lembro bem da primeira vez em que a coisa suddenly dawned on me. Foi no aniversário de uma prima. Calhou de eu ficar conversando com a vizinha dela, que me despejou detalhes de sua recente separação. “Vocês eram felizes?” “Muito! Mas não deu certo.” Cometi a asneira de dizer que se o casamento funcionou durante 25 anos, pode-se dizer que deu certo. Pode ter azedado, depois, mas deu certo... por um bom tempo.
O marido a deixara pela melhor amiga dela. “Fingia ser minha amiga, freqüentava a minha casa... nossos filhos brincavam juntos!”, ela se lamentou. Eu disse que a outra provavelmente não fingia, era amiga, sim, decerto,... “Mas teve o azar de se apaixonar pelo seu marido”. Ela me olhou como se eu fosse louca de pedra (pedregulho, talvez): “Amigas não fazem isso!”.
Sei lá. Como se a gente pudesse controlar nossas paixões! Coitada da amiga, coitado do marido, coitada dela... Talvez ela devesse dizer “Maridos não fazem isso!”... Por que amigas deveriam ser mais leais do que maridos?
Ela garantia ter descoberto que se casara com aquela figura famosa, A Pessoa Errada. “Mas, se você pudesse escolher”, perguntei, “o que você desejaria? Se um gênio da lâmpada aparecesse agora, o que você pediria a ele? Um outro homem?” “Que fizesse a minha falsa amiga desaparecer da face da Terra. Eu queria nunca ter conhecido essa pessoa! Que ela nunca tivesse existido!” “E se isso acontecesse... você voltaria com seu marido?” “Claro.” “Ou seja: se ela desaparecesse, você se casaria de novo com A Pessoa Errada...?” O olhar dela me informou que eu tinha feito A Pergunta Errada. Como não tenho Desconfiômetro®, perguntei de novo: “Quer dizer, se ela não existisse... ele deixaria de ser A Pessoa Errada e passaria a ser A Pessoa Certa?”
Silêncio. Como continuo sem Desconfiômetro™, tentei explicar: “Enfim, você não quer outro...! Você queria ele mesmo, mas sem um detalhezinho. Se outro não serve, então A Pessoa Certa é ele. Ele é A Pessoa Certa, mas tem defeitos”. Não dei Ibope. Ela foi procurar um ombro mais confortável que o meu. Estranho, sempre acho que digo coisas tão sensatas a quem precisa de conforto...
Mas do que eu queria falar é outra coisa. O artigo do Diogo Mainardi no número 2102 da Vejona! Hilário. Me deu pena do tal Quatipuru Borges, que mexeu com a Pessoa Errada.
Fiquei tentada, claro, a usar outro nome exótico de cidade, continuando a brincadeira que o Mainardi começou, mas desisti. Eu não faria aquilo com tanta classe. Em vez disso, fui guglear, atividade irresistível. Eis o que diz o site Amazônia de A a Z: “O primeiro nome dado ao Município, Quatipuru, foi devido à abundância de roedores - coatipuru ou acutipuru "sciurus aestucus" - existentes na região.” Roedores, hein?

Depois fui ao Houaiss procurar a etimologia. Vício é vício, tem gente por aí viciada em coisas menos inofensiva que pesquisar. “A. G. Cunha, em DHPT, registra tupi aku'ti 'cutia' + pu'ru; segundo Nascentes, do tupi akutipu'ru 'cutia enfeitada' (de aku'ti 'cutia' + pu'ru 'enfeitada'); segundo Silveira Bueno, o sentido 'cutia enfeitada' se deve ao fato de o esquilo exibir uma bela cauda; cp. agutipuru; cf. quatipuru; f.hist. c1777 acotipurú, 1928 acutipurú, 1949 acutipuru."
Anran. Roedor-de-bela-cauda.
Por Tupã! Alguns papais deveriam pesquisar o significado dos nomes que estão dando aos seus filhinhos!
-----------------------------------------------------------------------------------
* (ponho minhas fichas em Marta Medeiros, como autora de A Pessoa Errada, mas sei lá)
--- Desconfiômetro -- sei não, mas desconfio de q esse equipamento tenha marca registrada... por via das dúvidas, escrevi-o assim!
Se bem que – deixa eu fazer um longo parênteses – muito antes de começar a circular pela net esse texto cuja autoria é dada como ‘desconhecida’* e que tem o título de A pessoa errada eu já pensava mais ou menos aquilo, mesmo.
Lembro bem da primeira vez em que a coisa suddenly dawned on me. Foi no aniversário de uma prima. Calhou de eu ficar conversando com a vizinha dela, que me despejou detalhes de sua recente separação. “Vocês eram felizes?” “Muito! Mas não deu certo.” Cometi a asneira de dizer que se o casamento funcionou durante 25 anos, pode-se dizer que deu certo. Pode ter azedado, depois, mas deu certo... por um bom tempo.
O marido a deixara pela melhor amiga dela. “Fingia ser minha amiga, freqüentava a minha casa... nossos filhos brincavam juntos!”, ela se lamentou. Eu disse que a outra provavelmente não fingia, era amiga, sim, decerto,... “Mas teve o azar de se apaixonar pelo seu marido”. Ela me olhou como se eu fosse louca de pedra (pedregulho, talvez): “Amigas não fazem isso!”.
Sei lá. Como se a gente pudesse controlar nossas paixões! Coitada da amiga, coitado do marido, coitada dela... Talvez ela devesse dizer “Maridos não fazem isso!”... Por que amigas deveriam ser mais leais do que maridos?
Ela garantia ter descoberto que se casara com aquela figura famosa, A Pessoa Errada. “Mas, se você pudesse escolher”, perguntei, “o que você desejaria? Se um gênio da lâmpada aparecesse agora, o que você pediria a ele? Um outro homem?” “Que fizesse a minha falsa amiga desaparecer da face da Terra. Eu queria nunca ter conhecido essa pessoa! Que ela nunca tivesse existido!” “E se isso acontecesse... você voltaria com seu marido?” “Claro.” “Ou seja: se ela desaparecesse, você se casaria de novo com A Pessoa Errada...?” O olhar dela me informou que eu tinha feito A Pergunta Errada. Como não tenho Desconfiômetro®, perguntei de novo: “Quer dizer, se ela não existisse... ele deixaria de ser A Pessoa Errada e passaria a ser A Pessoa Certa?”
Silêncio. Como continuo sem Desconfiômetro™, tentei explicar: “Enfim, você não quer outro...! Você queria ele mesmo, mas sem um detalhezinho. Se outro não serve, então A Pessoa Certa é ele. Ele é A Pessoa Certa, mas tem defeitos”. Não dei Ibope. Ela foi procurar um ombro mais confortável que o meu. Estranho, sempre acho que digo coisas tão sensatas a quem precisa de conforto...
Mas do que eu queria falar é outra coisa. O artigo do Diogo Mainardi no número 2102 da Vejona! Hilário. Me deu pena do tal Quatipuru Borges, que mexeu com a Pessoa Errada.
Fiquei tentada, claro, a usar outro nome exótico de cidade, continuando a brincadeira que o Mainardi começou, mas desisti. Eu não faria aquilo com tanta classe. Em vez disso, fui guglear, atividade irresistível. Eis o que diz o site Amazônia de A a Z: “O primeiro nome dado ao Município, Quatipuru, foi devido à abundância de roedores - coatipuru ou acutipuru "sciurus aestucus" - existentes na região.” Roedores, hein?

Depois fui ao Houaiss procurar a etimologia. Vício é vício, tem gente por aí viciada em coisas menos inofensiva que pesquisar. “A. G. Cunha, em DHPT, registra tupi aku'ti 'cutia' + pu'ru; segundo Nascentes, do tupi akutipu'ru 'cutia enfeitada' (de aku'ti 'cutia' + pu'ru 'enfeitada'); segundo Silveira Bueno, o sentido 'cutia enfeitada' se deve ao fato de o esquilo exibir uma bela cauda; cp. agutipuru; cf. quatipuru; f.hist. c1777 acotipurú, 1928 acutipurú, 1949 acutipuru."
Anran. Roedor-de-bela-cauda.
Por Tupã! Alguns papais deveriam pesquisar o significado dos nomes que estão dando aos seus filhinhos!
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* (ponho minhas fichas em Marta Medeiros, como autora de A Pessoa Errada, mas sei lá)
--- Desconfiômetro -- sei não, mas desconfio de q esse equipamento tenha marca registrada... por via das dúvidas, escrevi-o assim!
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Quatipuru Borges
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Língua uniformizada?
Nunquinha!
hj descobri q os portugueses chamam 'cátion' de "catião". Na Wikipedia, há esta frase primorosa, misturando os dois dialetos da Língua Portuguesa:
"Um dos catiões mais comuns é o cátion sódio."
http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A1tion
Evidentemente, frase escrita a quatro mãos por um ptguês e um brasileiro... Nem 'corrigi', deixei assim. Uma pérola a testemunhar (testemunhando) nossas diferenças.
Gosto de dar umas dedadas na Wikipedia, mas esta vale a pena permanecer como está! Vai ser uma pena se alguém corrigir!
aí vai ser um tal de mudarem pra uma e outra língua, dependendo da nacionalidade do 'colaborador'...!
hj descobri q os portugueses chamam 'cátion' de "catião". Na Wikipedia, há esta frase primorosa, misturando os dois dialetos da Língua Portuguesa:
"Um dos catiões mais comuns é o cátion sódio."
http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A1tion
Evidentemente, frase escrita a quatro mãos por um ptguês e um brasileiro... Nem 'corrigi', deixei assim. Uma pérola a testemunhar (testemunhando) nossas diferenças.
Gosto de dar umas dedadas na Wikipedia, mas esta vale a pena permanecer como está! Vai ser uma pena se alguém corrigir!
aí vai ser um tal de mudarem pra uma e outra língua, dependendo da nacionalidade do 'colaborador'...!
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